segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

E antes que o clima natalino acabe...

estou eu aqui tratando de dois filmes muito interessantes que coincidentemente falam de Natal. O primeiro deles foi a feliz estréia de Selton Melo na direção. O filme se chama Feliz Natal e narra a triste investida de Caio (Leonardo Medeiros) ao aparecer novamente para a família numa festa de natal. Estranho a tudo e fora de lugar, Caio percebe a decadência da família enquanto tenta (em vão) uma espécie de reaproximação. A bela interpretação de Darlene Glória (imortal na pele de Geni de Toda nudez será castigada, direção de Arnaldo Jabor) faz sentir o peso de uma família em ruína. O filme é escuro e quando não o é continua a dar a sensação de claustrofobia intensificada pelos cenários fechados e pelas situações constrangedores a que são submetidos os personagens (nunca vou esquecer a cena em que a mãe bêbada quer falar sobre o sentido do natal na mesa do almoço e todos, um por um, vão se levantando, deixando-a sozinha no seu solilóquio delirante). As festas de natal e aquilo que acontece no universo familiar antes, durante e depois delas estão sempre carregadas de uns sentidos tão misturados, porque ao mesmo tempo em que há uma disposição afetiva das pessoas no sentido de se reunirem para promover uma coletividade familiar, há também um monte de mágoas e restrições, críticas escondidas, remorsos, culpas, agressividades latentes, invejas adormecidas; todas esses sentimentos sujos e espúrios que fazem parte de toda família (que se ama!!). Isso tudo você encontra no filme de Selton Melo, por isso, embora alguma parte da crítica exija mais do filme, eu só tenho boa coisas a apontar, talvez porque sou fã dele (sou mesmo, até autógrafo eu já pedi), talvez porque aquele natal do filme de alguma forma se pareça com aquilo que eu sinto - já faz algum tempo - acerca do meus natais. Enfim, depois de Selton, foi a vez do diretor francês Arnaud Desplechin filmar o seu natal, que eu assisti ontem, numa odisséia terrível pela cidade à procura de um filme bacana que eu ainda não tivesse visto. Pois bem, Um conto de Natal é o nome do drama/comédia que tem 2horas e vinte de duração e nos reserva de surpresas românticas a amargas constatações. Junon Vuillard (Catherine Deneuve) está com um câncer difícil, precisa de um transplante de medula. Somente Henri (Mathieu Amalric), o filho banido da família pela controladora irmã Elizabeth (Anne Consigny), é um possível doador pois é compatível. O filho de Elizabeth também o é, mas passa por problemas psiquiátricos e é a segunda opção. O problema é que Junon nunca fez segredo de seu desamor por Henri, e este (reciprocamente) parece não fazer nenhuma questão de ajudar a mãe. A trama dá-se na reunião da família para o natal em que, depois de vários anos, Henri foi convidado a participar. O que mais chama a atenção neste filme é a capacidade do diretor de compor personagens absolutamente reais em seus comportamentos, conflitos e atitudes, de forma que não há em ninguém um caráter predeterminado ou uma postura "coerente", já que todos parecem ter sentimentos oscilantes e estão descobrindo coisas acerca de si mesmos naquele momento. Também aqui, como no filme de Selton Melo, há uma grande dose de ironia em torno das supostas festividades natalinas que objetivam unir as famílias em torno do amor e da fraternidade, há até mesmo alguns planos-sequências em que essa ironia se torna um sarcasmo e talvez seja esse tom agressivo o melhor do filme. Ao mesmo tempo e paradoxalmente, representa-se ali uma família no sentido mais estrito da palavra, em que os laços de sangue (isso é muito importante e muito revelador no filme) são levados em consideração por todos. Isso não acontece no filme de Selton. E sim, há belos momentos em que este sentido familiar surge na tela do filme francês, como na hilária apresentação teatral dos netinhos mais novos de Junon. Enfim, com suas semelhanças e diferenças, os dois filmes são difíceis, densos e marcantes, e por isso mesmo merecem atenção especial porque, principalmente, fazem refletir sobre o que é o Natal e o que é família hoje.

Um comentário:

Débora Oliveira disse...

Ah interessante, estava mesmo querendo assistir o novo filme de Selton Melo na direção... Feliz Natal! Parece realmente interessante... nem chama ne!!! Rummm... bjss