quarta-feira, 25 de março de 2009

De como Radiohead se parece com Fernando Pessoa

Me deprimi essa madrugada ouvindo Radiohead (que alguns amigos foram ver ao vivo em São Paulo, que inveja!). Que lindas e tristes são essas músicas desse tal Thom York. Fiquei muito tempo pensando sobre e bastante envolvida principalmente com essas letras que falam acerca de como é difícil lidar com a rejeição. São de fato grandes músicas sobre ser um perdedor, um desprezado. Por algum motivo me lembrei do Poema em linha reta do Fernando Pessoa. (que vai ao final deste post). É de uma força absurda esse poema, tem muita raiva nele, parece um grito. As letras do Radiohead também são assim. Nesta minha madrugada depressiva eu também li em algum lugar na web que ele, o vocalista do Radiohead, era hostilizado (como todo nerd) e chamado de "salamadra" na escola. É curiosa essa minha atração por nerds; eles sempre me parecem mais interessantes do que os playboys ou os marombados, por exemplo... De qualquer forma, me emocionei novamente com Creep e meus olhos sempre ficam um pouco marejados ao final do superhit Fake plastic trees: If I could be who you wanted / If I could be who you wanted all the time, all the time...
Finalizo com Fernando Pessoa. Beijos!
Poema em Linha Reta (Álvaro de Campos)
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

4 comentários:

Bibi disse...

Nossa, o Fernando Pessoa era meio passivo-agressivo! Pronto, falei.

Beijo. :*

_Dan_ disse...

Amei! Me identifiquei litros com o texto! rs e amo Fake Plastic Trees desde qdo lançaram. beijo!

Kovacs disse...

Radiohead consegue criar as músicas mais tristes do mundo, mas como são lindas... Parabéns pelo inusitado da comparação com Pessoa, mas pensando bem até que tem mesmo alguns pontos comuns!

minha literatura agora-james. disse...

Concordo com você.Pessoa e o radiohead conseguem tirar uma grande beleza da tristeza e da desolação da alma.Amo There There,com seu climaopressivo de conto de fadas gótico,mas lindo e pungente.Viva Thom Yorke!abraços do james.