segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Das dificuldades de terminar de ler Alan Pauls

Não me lembro do último livro que tenha me dado tanto trabalho para acabar quanto História do pranto do argentino Alan Pauls. Com apenas 85 páginas, o livro me consome de um jeito que a leitura se torna uma verdadeira guerra. A luta começou há 2 meses atrás. Não, de forma alguma o livro é ruim. Muito pelo contrário. A dificuldade está na aridez da narrativa, na emenda infinita de períodos muito bem feitos que provocam a nausenate sensação de estar, de fato, entrando na mente de um personagem. As digressões de um homem que remonta sua infância e desnuda suas sensações como se estivesse num divã psicanalítico resultam num incrível trabalho literário do escritor de O passado, também incrível texto e infelizmente muitíssimo mal adaptado no filme de Hector Babenco. Tão belo quanto difícil, termino essa batalha hoje, está decidido. Não recomendável para leitores de auto-ajuda, de Código Da Vinci, Augusto Cury e outras bizarrices semelhantes. Àqueles que lêem uma coisinha ou outra de vez em quando também aconselho a não se aproximarem. Não é pra qualquer um, não... Para os que têm coragem o suficiente, aí vai um trecho:
"Numa dessas raras tardes em que sua mãe, graças a uma noite sem pesadelos ou a um coquetel de remédios bem calibrado, decide, para sua surpresa, levá-lo ela mesma para passear na praça, ele se mete no pequeno elevador e se acomoda como pode na brecha que restou livre. É uma fração mínima de espaço, espremida entre a porta e o triciclo que sua mãe, que só teve que torear o veículo uma vez, no dia em que os avós chegam de imprevisto com ele no apartamento e alguém - alguém que não pode ser seu avô, que tem o costume de esgotar sua modesta cota de generosidade na coisa que presenteia e depois se limita a contemplar, como se pertencesse a uma jurisdição alheia, todas as operações verdadeiramente cansativas que o presente desencadeia - deve se encarregar de libertá-lo dos blocos de isopor que o imobilizam e tirá-lo da caixa, conseguiu fazer entrar no cubículo, logo depois de forcejar penosamente, e isto da maneira mais incômoda e antieconômica possível: atravessando-o em diagonal, o que divide o espaço do elevador em dois triângulos sem nenhuma proporção. Assim, sua mãe, que ainda nem pôs um pé na rua e já revela, pela cara que faz, que daria tudo para voltar para a cama, vestir outra vez a camisola, baixar as persianas, tomar outra pílula e dormir até de noite, fecha a porta gradeada e aperta o botão do térreo, quando de fora irrompe aquela mão que abre a porta de chofre e detém o elevador que partia. É o vizinho, o vizinho militar. Ele se desculpa e entra, e com ele, envolvendo-o, entra uma nuvem gelada de fragrância, um desses perfumes baratos que só a boa vontade, ou o fato de surgirem associados a um corpo humano, e não a um lugar vazio forrado de azulejos, impedem que se confunda com os desodorizadores de ambientes que se respiram na maioria dos banheiros públicos. Entra uniformizado, como não poderia deixar de ser, e só o uniforme, à primeira vista limpo, passado, impecável, como todos os que vê na rua exibidos por seus duplos de Alfa Centauro, pode fazer com que ele desvie os olhos do que os mantêm cativos há alguns segundos: a fenda de escuridão que acaba de abrir perto demais de seus pezinhos o desnível entre o piso do corredor e o do elevador, na qual sente que seu corpo poderia caber sem problemas e pela qual já se imagina, ficha humana, escorregando no abismo. Descem no elevador - sua mãe e o vizinho daquele lado do triciclo, juntos, ele, do outro, com a roda dianteira do triciclo, que continua girando por inércia, roçando sua franja, e aproveita que sua mãe e o vizinho trocam umas frases protocolares nas quais é evidente, contudo, o muito que ambos põem de si, muito mais do que a índole do diálogo exige deles, sua mãe, sem dúvida, para escorar uma respeitabilidade que pensa estar prejudicada por sua condição de jovem separada já com a carga de um filho, o militar, quem sabe, talvez porque a deseje, talvez porque se pergunte quem poderá ser essa jovem separada já com a carga de um filho que só ouve jazz, veste-se na última moda e não consegue pregar o olho sem soníferos, talvez porque ele também tenha algo a esconder - aproveita então para sondar de cima a baixo o uniforme do vizinho. Outra vez o mesmo fascínio, o deslumbramento, o estupor em que o abismam esses tecidos lisos, homogêneos, limpos da mais ínfima irregularidade, cujo lustro, que não é deste mundo, ele só pode comparar ao da carroceria de metal, se é que há metal, naturalmente, em Alfa Centauro, das naves em que viajam os invasores. E no entanto, no segundo ou terceiro rastreamento, seus olhos, depois de subir e descer, deixam-se surpreender por uma dissonância, algo que parece um ruído no debrum da farda, ali onde a mão do vizinho abre e fecha várias vezes esses dedos esbeltos e reluzentes, evidentemente com as unhas feitas, sobre um molho de chaves. O forro da jaqueta, descosturado, deixa escapar uma língua lânguida por debaixo da barra."

Um comentário:

Kovacs disse...

Um livro difícil sem dúvida, mas inesquecível. Convido para ler a minha resenha lá no Mundo de K.