domingo, 7 de dezembro de 2008

Minha mãe, Saramago e o filme de Fernando Meirelles

Minha mãe leu esta semana Ensaio sobre a cegueira. Maurício e Rafael me encomendaram algo sobre o filme. Então tá na hora de falar sobre. Segundo relato da própria, dona Edna Maria não conseguia comer, nem dormir, nem se sociabilizar enquanto esteve grudada nas páginas de Saramago. Meu pai perguntou que diabos de livro é esse que tu não larga mais e só fala dele agora. Quando eu cheguei em casa hoje, a mãe me perguntou se no filme é daquele mesmo jeitinho que tá descrito ali. Eu disse que era. Porque pra mim foi. Nenhum comentário de pseudocríticos ressentidos que adoram malhar quem está na moda (Fernando Meirelles está na moda e está podendo, haja vista o orçamento milionário do filme) me impediu de ter a felicidade de entrar numa sala de cinema e compartilhar da bela transposição cinematográfica que nada mais é do que a leitura que F. Meirelles fez do livro de Saramago. Eu digo compartilhar porque senti que compreendi a leitura de Meirelles, percebi que a minha idéia do Ensaio... era muito semelhante à que ele me mostrou em seu filme. A insistência do branco, o ritmo da narrativa, a câmera que oscila entre a fixidez da observação da cena crua e a perturbada agitação do plano em movimento, a violência fora de foco e esfumaçada, todas estas e outras que não consigo elencar agora foram escolhas técnicas de Meirelles que me fizeram reler o livro enquanto via o filme. E é esse movimento de releitura que eu acho bacana, é conseguir entrar no diálogo da transposição e perceber que seu modo de ler deu certo, tanto que retorna em novo formato. Quer saber em quais outras ocasiões isso aconteceu comigo? Lavoura Arcaica de Luis Fernando Carvalho, Vidas Secas de Nelson Pereira dos Santos, Medéia de Pasolini, para citar alguns. Porém, algumas vezes não há compartilhamento de leituras entre o espectador e o diretor da adaptação. Comigo isso também já ocorreu, sou completamente desconectada d’O amor nos tempos do cólera de Mike Newell, ou do Memórias Póstumas de André Klotzel, por exemplo. Com todo mundo é assim: é pessoal como tudo na vida, embora haja gente que ainda acredite em verdade e realidade absolutas.
Enfim, tudo isso para defender o direito de Meirelles de representar o Ensaio... à sua maneira, porque o filme é dele e deve ser fiel unicamente aos propósitos, às opiniões e à leitura que ele teve. Se você, espectador, está disposto a entrar em diálogo e tem os requisitos básicos para fazê-lo, aproveite a viagem. Se você não tem nem disposição nem leitura suficientes, fica caladinho... E minha mãe? Está pilhadíssima para “conversar” com a leitura de Fernando Meirelles, não vê a hora de ver o filme, para desespero do meu pai, que ainda não entendeu tanto burburinho! Beijos, até...

4 comentários:

Rayanne disse...

Oi Émile, você já comentou bastante sobre José Saramago em nossas aulas e essa história de relacionar o livro com o filme é muito bacana. Em nosso último trabalho tive a oportunidade de afrontar o belíssimo "Lavoura Arcaica" com "O Caçador de pipas". O primeiro livro dispensa comentários,mas em minha opinião no filme (apesar de ser maravilhoso)a impressão que tive foi que o Selton Mello estava lendo o livro, engraçado isso (talvez porque desenhei a história de outro jeito). O segundo foi estranhíssimo tentaram abrinhantar o filme e mesmo assim carregaram a inverossimilhança para dentro das telas... vai entender...
Até a próxima, estou amando ler seu blog e me aproximar mais de suas brilhantes idéias...
bjs

Rafael Araújo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rafael Araújo disse...

Não tive a oportunidade de ler o "Ensaio sobre a cegueira", mas vi o filme e me emocionei bastante. Confio nas sugestões da Émile e se ela o comparou com o "Lavoura Arcaica" (que eu amo de paixão) é sinal de que o filme está bem adaptado. Quero ler o Ensaio... mesmo já tendo visto o filme. Li o "Evangelho Segundo Jesus Cristo" do Saramago e apreciei a narrativa.

Ressaltando a minha opnião sobre o "Lavoura Arcaica", que também foi citado, acredito que o diretor tentou ser o mais fidedigno possível ao conteúdo do livro. E mesmo com discursos extensos dos personagens, principalmente o do Selton Mello, não fiquei com a impressão de que o ator estivesse lendo o livro. Muito pelo contrário, achei sua interpretação brilhante. Um poder de concentração muito expressivo que não sei se outro ator conseguiria fazer tão bem.

Estou ficando abusado, mas gostaria de fazer outra encomenda. Assim que possível faz um post do Lavoura... vai ser muito bom!

bjo

elvinho disse...

Adaptação perfeita! Concordo com Saramago por ter batido o pé para não aceitar filme adaptado do Ensaio sobre a cegueira. Afinal, como conseguiria transformar aquela obra em imagens? O excesso de violência poderia ficar clichê ou o filme poderia deixar a desejar por falta de alguns trechos do livro impecáveis. Mas não foi isso que aconteceu, Fernando Meirelles chega ao topo; não digo isso por apenas admirar a adaptação feita por ele. Digo isso porque ele conseguiu fazer exatamente com que Saramago tivesse a mesma sensação ao terminar o filme de quando ele terminou o livro, emocionando-o. E isso sim era o seu objetivo, a aprovação do escitor.
Para aquele que ja leu o livro eu vou lhe dizer uma coisa: Não faltou nada! Para aqueles que não leram e nem viram, corram para ver a impecável Julianne Moore ao lado da brasileira Alice Braga. Não tenha vergonha de se desmanchar em lágrimas no meio do cinema!Brilhante! Sensacional! Imperdível!